sábado, 4 de fevereiro de 2012

PEC VITÓRIA


O Vitória não vive hoje em dia dias felizes a nível desportivo, mas, principalmente, a nível financeiro. Durante esta semana que passou falou-se que o passivo financeiro do clube, leia-se dívidas do mesmo, podem já ascender a 20 milhões e pode ainda vir a continuar a crescer nesta espiral de crise económica. Normalmente a tendência de quem tem de lidar com crises financeiras, mas principalmente de liquidez procura aumentar as receitas, pois sabe que são estas que estas são aquelas que podem ajudar a resolver o curto prazo, porém num clube de futebol aumentar as receitas é muito complicado, a menos que se façam receitas extraordinárias vendendo património e/ou ativos. Pode-se também resolver este problema através de receitas fixas, mas neste prisma seria necessário aumentar as quotas o que nesta altura de crise é o menos aconselhável, pois pode afastar sócios que passam por dificuldades financeira. O problema do Vitória é de liquidez, mas esta falta de liquidez deve-se à má gestão. A melhor forma de criar liquidez é cortar nas despesas seja no curto ou médio/longo prazo. Por isso este PEC não é destinado a sentimentalistas e os cortes que aqui vou defender não são bonitos nem consensuais, mas são, no meu entender, a solução para o Vitória voltar a uma situação de estabilidade financeira, leia-se equilíbrio, no prazo de 10 anos. Vamos então começar a ver os números e factos, retirados dos relatórios e contas das últimas 3 épocas (incluindo aquele que foi rejeitado pelos sócios na última AG) e para o Orçamento desta época desportiva.

Nas Receitas
Olhando para as receitas do Vitória podemos concluir que o problema não está aqui. Porquê? Simples. Porque as receitas fixas, que todos os anos o Vitória consegue obter são de um valor invejável por qualquer clube de Portugal, excetuando os ditos 3 grandes. Ora estamos a falar de receitas nas seguintes ordens:
1) Publicidade e direitos televisivos, no valor 5.000.000,00€;
2) Quotas, no valor de 1.500.000,00€;
3) Cadeiras, no valor de 500.000,00€;
4) Bilhetes, no valor de 450.000,00€.
Ora o Total destas receitas dá 7.450.000.00€. De notar que nos últimos anos exceto o ponto 1, estes pontos tem vindo a decrescer cerca 200.000,00€ no ponto 2, 100.000,00€ no ponto 3 e 500.000,00€ no ponto 4, ao todo um decréscimo de 800.000,00€ em receitas normalmente realizáveis pelo clube. Parece claro que estas receitas são bastante constantes, apesar do decréscimo que algumas têm vindo a sofrer, sendo que isto só vem provar que elas podem aumentar e vir a chegar aos 8.000.000,00€ época.
Olhando agora para as restantes receitas temos as receitas de venda de mercadorias e exploração com os seguintes valores:
5) Vendas de Mercadorias , no valor de 230.000,00€
6) Subsídios de Exploração, no valor de 150.000,00
Não deixa aqui também de ser evidente que estas rubricas decresceram quase ou mais de 50% em 3 anos. Preocupante também é reparar que a diferença entre o Custo de Mercadorias Vendidas e Matérias consumidas e as Mercadorias Vendidas passou de 133.000,00€ em 2008/2009 para 80.000,00€ em 2010/2011. Para resolver este problema o Vitória deve procurar adquirir mercadorias a menor custo e estimular as compras dos seus associados através da diversificação de produtos e até de edições exclusivas de alguns artigos.
Olhando agora para os dados gerais podemos concluir que o Vitória pode conseguir anualmente realizar encaixes financeiros no valor de 10.000.000,00 €, isto em caso de não haver proveitos extraordinários, sendo que com estes nos últimos 3 anos o Vitória tem conseguido realizar receitas de 15.000.000,00€, em média.

Nas Despesas
Chegamos agora ao ponto-chave do futuro do clube. E por isso mesmo vamos começar pelo fim e pela constatação de que estas, ao contrário das receitas se têm mantido constantes, ou seja na casa dos 15.500.000,00€ em média nos últimos 3 anos. Ora as maiores rubricas da despesa são:
7) Gastos com o Pessoal, no valor de 8.000.000,00€
8) Fornecimentos e Serviços Externos, no valor de 3.500.000,00€
9) Amortizações, no valor de 1.500.000,00€
Ora o Total destas 3 rubricas ascende a 13.000.000,00€, ou seja supera as Receitas Fixas referidas anteriormente em 5.550.000,00€. Isto é muito grave, pois destas rubricas há duas, 7 e 8, que podem ser controladas por quem gere o clube, sendo que a 9 é de pagamento obrigatório devido aos empréstimos obtidos. Sendo que no meu entender o valor destas rubricas deveria estar abaixo ou no máximo equivalente às Receitas Fixas. Para tem maior noção as despesas do clube, fora estas 3 rubricas ficam-se pelos 2.105.000,00€, ou seja, são 13,6% do total da despesa, sendo as outras 3 rubricas a restante percentagem.
Mais escandaloso ainda será verificar que em 3 anos a rubrica 7, de Gastos com Pessoal, aumentou 3.000.000,00€ e que a rubrica 8, de Fornecimentos e Serviços Externos, aumentou 1.500.000,00€. Se na rubrica 7 se percebe o que está em causa, isto é, os salários de funcionários do clube, jogadores e equipas técnicas do Futebol, na rubrica 8 (Página88 R.C. 2010/2011) o que está em causa são Serviços Especializados, Materiais, Energias e Fluídos, Deslocações e Serviços diversos.
Nas Modalidades podemos constatar que só em gastos com Pessoal o Vitória gasta mais do que consegue produzir em termos de receitas, das mesmas, algo que não deve ser ignorado.

As Soluções
Chegamos agora à fase mais importante deste PEC a apresentação de soluções e vamos ir como é óbvio pelos 2 lados, ou seja, pelas receitas e despesas.
No lado das receitas as soluções poderão ser:
• Aumentar a margem de lucro entre as Mercadorias Vendidas e o Custo de Mercadorias Vendidas e Matérias Consumidas, seja através de compra de mercadorias e matérias a um preço mais baixo, seja através da maior diversificação da loja do clube, que em termos de produtos deixa algo a desejar em relação a vários clubes nacionais e europeus;
• Procurar aumentar o número de Sócios;
• Aumentar o número de cadeiras vendidas e reavaliar o preço da venda de lugares anuais e conseguir melhor receita com os camarotes;
• Conseguir maiores receitas de Bilheteira, colocando o preço de Bilhetes de acordo com a procura, isto é, num jogo com uma equipa dita grande os Bilhetes devem ter um custo maior, e os bilhetes para jogos das Taças contra equipas de escalões inferiores e durante a semana devem ser menores. Não deve ser esquecido aqui também o facto dos bilhetes de acompanhante que devem seguir o mesmo princípio dos anteriores;
• Procurar um aumento de receitas publicitárias;
• Explorar o seu pavilhão a nível comercial, permitindo o uso deste para torneios e para uso público das pessoas (Exemplo: Alugamento durante 1h para realização jogos durante a semana e fim-de-semana, como acontece com os pavilhões da Tempo Livre)
• Aumentar a receita dos subsídios de exploração, para um valor mais condizente com a realidade da potencialidade de negócio dessas explorações;
• Começar a fazer negócios, com base em objetivos, com jogadores dispensados, em vez de os deixar sair a custo 0;
• Criação da equipa B, pois pode aumentar receitas de publicidade e até de televisão, e ainda ser uma montra para ativos do clube, neste caso jogadores jovens.
Estas soluções não tem obrigatoriamente de ser seguidas, muitas delas podem até ser colocadas de lado se o Vitória conseguir controlar as suas despesas pois é desse lado que está o verdadeiro problema.

No lado das despesas as soluções são muito mais importantes, pois neste momento de crise nacional e do próprio clube torna-se perentório reduzir gastos e adequá-los às receitas existentes, de forma a termos exercícios mais equilibrados e que possam produzir lucro, que pode ser usado para abater o passivo ou então criar poupança para que o clube possa sempre ter alguma liquidez em caixa. Assim sendo as soluções passam por:
• Redução dos gastos com o pessoal, sendo que se deve instituir uma política de que estes nunca devem superar as receitas fixas do clube, sendo que é perfeitamente possível com 6.000.000,00€ fazer uma equipa competitiva para a 1ª Liga;
• Deixar de fazer estágios nos jogos em casa ou perto de Guimarães, permitindo assim poupar alguns milhares de €;
• Reformulação dos quadros do clube, devendo reduzir o número de diretores remunerados de 3 diretores para várias áreas, para apenas 1 diretor-geral que possa gerir todo o clube. Estando aqui subjacente o principio de redução dos custos administrativos
• Redução dos gastos com Fornecimento de Serviços externos, sendo importante gastar menos com honorários;
• Negociação da Dívida do clube num prazo de 10 a 15 anos, de forma a que o Vitória tenha apenas de amortizar por ano cerca de 1.5 a 2.000.000,00€ de dividas, podendo assim tentar gerar algum lucro de forma a manter em caixa para ter alguma liquidez para momentos mais complicados no futuro, como este que passamos hoje. Sendo que a venda de ativos podem ter aqui uma posição determinante;
• As despesas deverão ter um teto máximo nos 12.000.000,00€ nos próximos anos;
• Fim das modalidades amadoras durante um prazo de 5 a 10 anos, de forma a deixar de ter gastos de 1.000.000,00€ por ano só com gastos de pessoal nas mesmas, sendo que o seu fim permite ainda acabar com gastos de aluguer de pavilhões, alojamentos, viagens e alimentações, taxas de arbitragens, Seguros… As modalidades representam por ano um gasto de cerca 2.000.000,00€, e apenas produzem receitas de 750.000,00€, isto na melhor das hipóteses. Permite ainda a exploração do pavilhão, como já foi referido. Numa pesquisa rápida sobre os clubes mais ricos do mundo podemos perceber que nos 50 primeiros temos apenas 11 que praticam mais do que uma modalidade, sendo que o clube mais eclético da europa aparece em 26º lugar. Assim sendo é meu crer que o Vitória deve até equilibrar a sua situação financeira voltar à base do seu nascimento e principal crescimento, isto é apenas ter futebol, até porque as modalidades ao contrário do Futebol não geram ativos passíveis de venda e rentabilização financeira. Não é uma solução agradável, mas a necessária neste momento para bem do clube. Se for adotada esta solução, o regresso das mesmas no futuro deve ser feita através da formação e da potenciação da mesma para os seniores, de forma a que sejam sustentáveis, e não numa base de conquistas rápidas, como foi feito no passado.

Estas são as soluções mais importantes que o clube tem de tomar. Muitos estarão a perguntar-se o porquê de não me ter referido ao modelo de gestão do clube. A razão para ter deixado isso para o fim foi uma e é a seguinte: será um erro o Vitória avançar para SAD ou para Investimentos Externos no clube sem antes resolver os seus problemas estruturais. O dinheiro da SAD resolve o passivo no imediato mas se não forem tomadas decisões em relação à redução da despesa e adequamento da mesma às receitas, o passivo mesmo depois de eliminado voltará, pois continuaremos a apresentar défices nos exercícios financeiros do clube.
Assim no meu entender este deve ser o primeiro passo a ser seguido, se depois de termos tomado este caminho continuarmos a ter dificuldades aí sim devemos recorrer às soluções de investimento Externo. Não deixa de ser importante o Vitória começar a criar liquidez financeira em caixa para fazer frente a situações como a que vivemos hoje no futuro.


P.S.: Dados utilizados são referentes aos últimos 3 Relatórios e Contas (2008/2009; 2009/2010; 2010/2011 não aprovado) e ao Orçamento de 2011/2012. Os dados foram arredondados de forma a tornar a perceção mais facilitada, sendo que podem se encontrar ligeiramente superiores ou inferiores aos R.C. e Orçamento, porém não deixam de passar uma imagem real do clube. Tudo o que é aqui defendido vem da minha opinião pessoal, construída com baso nos meus conhecimentos e competências, e nos dados oficiais apresentados pelo clube, sendo estas soluções teóricas que devem ser depois estudadas internamente.

3 comentários:

luis cirilo disse...

Uma análise muito interessante e que subscrevo quase na integra.
Ressalvo a questão da SAD.
Os argumentos usados defendendo a sua constituição depois do clube saneado financeiramente são argumentos que considero pertinentes. Infelizmente a situação é de tal forma calamitosa que ou conseguimos por o Vitória a ganhar depressa (com tudo que isso trás desde patrocinadores a lugares anuais vendidos passando pela comercialização de merchandising a sério)ou a recuperação poderá nunca ser possivel por mais que apertemos o cinto. E só podemos ganhar "depressa" se encontrarmos investidores que venham para a SAD num optica de negócio puro e duro.
Investem,rentabilizam,ganham. E o Vitória também.
Por isso(mas essencialmente pelo estado financeiro caótico do clube)mudei de opinião quanto à oportunidade de constituir uma SAD.
Espero ter razao.Admitindo,obviamente,que posso não a ter.

Filipe Fumega disse...

Caro Luís Cirilo,
eu por muito que possa parecer não sou inteiramente contra a SAD, até porque se ele for bem gerida é sem dúvida uma solução. Mas o ponto está aí, a gestão da SAD, e sobre isso o Luís já sabe quais são as minhas perguntas.
Sobre o resto acho que temos de perceber que só a SAD não chega e é preciso mesmo assim cortar nas despesas, já não digo que se apaguem todas as modalidades amadoras, porque fiquei a saber que algumas não tem gasto nada ao Vitória e nesse caso elas devem ser mantidas. Mas o maior problema é sem dúvida nenhuma a questão dos salários, o Vitória gasta 8.000.000,00€, que esta época deve ir para os 9, senão 10, e mesmo assim apresenta resultados piores que equipas que gastam 2,3 e 5. Ou seja, isto vem provar que se pode fazer mais com muito menos e volto a repetir que os salários não deveriam ser superiores a 7.000.000,00€, que é o que o Vitória faz em receitas fixas.
Mas, se o doutor Cirilo quiser, faço toda a questão de um dia me sentar à mesa consigo explicar-lhe melhor estas ideias, e outras.

luis cirilo disse...

Terei todo o gosto nisso caro Filipe. Se quiser mandar-me um mail (ou mensagem no facebook )com o seu número eu ligo-lhe